A capital do Senegal, Dacar, com sua região metropolitana abrigando quase 4 milhões de pessoas, reafirma sua posição estratégica no cenário internacional. Sendo o ponto mais próximo do continente africano às Américas, a cidade sediou recentemente o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África. O evento, que se estendeu por dois dias e foi concluído em uma terça-feira, reuniu líderes e especialistas para debater os desafios cruciais do continente.
O fórum contou com a participação de chefes de Estado e representantes de 38 países, incluindo 18 nações africanas e 20 de outras regiões, além de dez organismos internacionais de grande relevância, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE). O Brasil marcou presença por meio de sua embaixadora no Senegal, Daniella Xavier, evidenciando a crescente aproximação e o interesse mútuo entre as nações do Sul Global.
Dacar se Afirma como Centro de Diálogo Estratégico Africano
Na cerimônia de abertura do fórum, o presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, destacou a importância de Dacar como uma capital de diálogo estratégico, tanto para a África quanto para a comunidade internacional. Ele descreveu a cidade como um espaço fundamental para a reflexão e a troca de experiências, visando o desenvolvimento de soluções internas para os complexos desafios de segurança que o continente enfrenta.
Além de ser uma plataforma para diagnosticar problemas e propor soluções, o evento serve para consolidar o protagonismo do Senegal na região. O país é reconhecido por sua notável estabilidade, sendo considerado um dos mais seguros da África. Essa reputação fortalece sua capacidade de liderança e mediação em um continente frequentemente marcado por instabilidades.
A Busca por Estabilidade em um Continente Desafiado
O diplomata Leonardo Santos Simão, chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, ressaltou o histórico de paz e estabilidade do Senegal, um país que nunca sofreu um golpe de Estado. Essa trajetória contrasta com os momentos “conturbados” que a África tem vivenciado, caracterizados por conflitos internos, regionais, terrorismo e crime organizado.
A região do Sahel, que se estende de costa a costa e serve como transição entre o deserto do Saara e as savanas, é apontada como um epicentro do terrorismo internacional. Grupos jihadistas, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, representam uma ameaça constante. O Índice de Terrorismo Global de 2026 indica que essa região foi responsável por mais da metade das mortes por terrorismo em 2025, com Mali, Burkina Faso e Níger sendo os países mais afetados.
Nesse contexto, o fórum oferece um espaço vital para o intercâmbio de ideias e opiniões sobre como enfrentar esses desafios contemporâaneamente. A presença de representantes de países de fora da África sublinha a natureza global da discussão e a necessidade de cooperação internacional para a segurança regional.
Senegal e o Protagonismo do Sul Global
Leonardo Simão enfatizou a inserção do Senegal no conceito de Sul Global, uma aglutinação de nações em desenvolvimento que buscam maior influência e cooperação internacional. O Brasil, que também aspira a ser um expoente desse grupo, compartilha com o Senegal a visão de um diálogo interno do Sul para identificar desafios comuns e fortalecer a interlocução com o Norte Global.
A união crescente do Sul Global é vista como um meio de amplificar suas vozes e encontrar soluções para problemas como a pobreza e a exclusão. Simão defendeu que a soberania dos países africanos é um “imperativo cada vez maior”, e que as relações históricas com as nações do Norte precisam ser revistas para refletir uma nova realidade de igualdade e respeito mútuo. A presença de delegações de governos europeus com passado colonial, como Alemanha, Espanha, Portugal e França, no fórum, reforça a relevância desse diálogo sobre a redefinição das relações internacionais.
Soft Power e a Defesa da Soberania Africana
O professor moçambicano Carlos Lucas Mamboza, especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, interpretou a realização do fórum como um “instrumento claro” de soft power. No jargão diplomático, soft power refere-se à capacidade de influenciar relações internacionais por meio da atração e persuasão, em vez da coerção ou uso de força militar.
Para Mamboza, o evento projeta a imagem de um Estado senegalês estável, com capacidade institucional e aptidão para mediar conflitos tanto na zona do Sahel quanto em toda a África. O tema do fórum deste ano, “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”, reflete um dilema central para os Estados africanos.
O professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) explicou que a escolha do tema evidencia a necessidade de equilibrar a estabilidade interna, os processos de integração regional e a preservação da soberania. Tudo isso ocorre em um cenário internacional de intensa competição entre grandes potências, como China, Rússia e Estados Unidos, o que torna a agenda do fórum ainda mais abrangente e crucial para o futuro do continente. Para mais informações sobre o evento, visite o site oficial do Fórum Internacional de Dacar.

