A realidade das escolas brasileiras, onde a violência se manifesta em diversas formas, ecoa com particular intensidade no sul da Bahia. Uma pesquisa recente, divulgada nesta quarta-feira (6) e realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em parceria com o Ministério da Educação (MEC), revela que sete em cada dez gestores de escolas públicas (71,7%) enfrentam dificuldades significativas para dialogar sobre o combate a violências como bullying, racismo e capacitismo (preconceito contra pessoas com deficiência) no ambiente escolar. Este cenário, que já é complexo em grandes centros, ganha contornos específicos em nossa região, que abrange desde a efervescência urbana de Itabuna e Ilhéus até a tranquilidade aparente de municípios como Uruçuca e Una.
O levantamento, que ouviu 136 gestores de 105 escolas públicas (59 municipais e 46 estaduais) em dez estados, incluindo a Bahia, entre março e julho de 2025, serve como um espelho para os desafios que diretores e coordenadores pedagógicos enfrentam diariamente em nossas comunidades. A dificuldade em abordar temas tão sensíveis não é apenas um dado estatístico; ela se traduz em angústia para pais, insegurança para alunos e sobrecarga para os profissionais da educação que, muitas vezes, se veem sozinhos na busca por soluções.
O eco da pesquisa nacional na região cacaueira
No sul da Bahia, a diversidade cultural e social imprime características únicas a esse desafio. Em Ilhéus, cidade histórica e polo turístico, as escolas lidam com uma população flutuante e a necessidade de integrar diferentes realidades socioeconômicas, onde o racismo e o capacitismo podem se manifestar de formas sutis ou explícitas. Já em Itabuna, centro comercial e urbano, a densidade populacional e a dinâmica da vida na cidade podem intensificar os casos de bullying e a pressão sobre os jovens, refletindo muitas vezes a violência que permeia as ruas.
Em municípios como Uruçuca, Una ou Canavieiras, com forte ligação com a agricultura cacaueira e comunidades mais interioranas, a dificuldade em dialogar sobre violência pode estar ligada a fatores como a distância entre a escola e as famílias, a menor disponibilidade de recursos para formação continuada dos educadores e, por vezes, a uma naturalização de certas condutas que, na verdade, configuram agressão. O pesquisador Adriano Moro, do Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC e coordenador do estudo, aponta que a naturalização da violência, onde “adultos da escola veem agressões como ‘brincadeiras’”, diminui a gravidade das situações e pode levar à omissão, um problema que se agrava em contextos com menos suporte.
Desafios diários: da sala de aula ao portão da escola
A rotina de um gestor escolar na região é um verdadeiro malabarismo. Imagine a diretora de uma escola municipal em Uruçuca, que precisa lidar com a falta de transporte para que pais de áreas rurais participem de reuniões, ao mesmo tempo em que tenta mediar um conflito entre alunos que envolvem questões de preconceito. Ou o coordenador pedagógico em Itabuna, que se depara com casos de bullying virtual que transbordam para o ambiente físico da escola, exigindo uma intervenção rápida e eficaz, mas sem o preparo adequado.
A pesquisa da FCC e do MEC destaca que, além da dificuldade em dialogar sobre violências, 67,9% dos gestores entrevistados relatam desafios na aproximação entre escola, famílias e comunidade. Em nossa região, isso é uma realidade palpável. Muitos pais, como Dona Maria, que vende acarajé no Pontal, em Ilhéus, ou Seu João, trabalhador da roça em Una, têm jornadas de trabalho exaustivas que dificultam a participação ativa na vida escolar dos filhos. Essa ausência, muitas vezes por necessidade, aumenta a pressão sobre a escola para lidar sozinha com os desafios, como bem contextualiza Adriano Moro.
Além do bullying: a complexidade das violências silenciosas
Um dos pontos cruciais levantados pelo estudo é o uso genérico do termo bullying, que pode mascarar violências mais específicas e igualmente graves. Em nossas escolas, é comum que atos de racismo, capacitismo ou violência de gênero sejam categorizados apenas como bullying, o que impede uma abordagem direcionada e eficaz. O bullying, por si só, é uma violência grave, caracterizada por agressões físicas ou psicológicas repetidas, mas ao não nomear corretamente o problema, a escola perde a oportunidade de intervir de forma mais assertiva.
A pesquisa também constatou outras dificuldades que afetam o clima escolar: 64,1% dos gestores indicam entraves na construção de bons relacionamentos entre estudantes; 60,3% mencionam dificuldades para desenvolver o sentimento de pertencimento dos alunos; e 60,3% reconhecem entraves na relação estudantes–professores. Esses dados mostram que a violência não é um problema isolado, mas parte de um tecido complexo de relações e sentimentos que precisam ser cuidadosamente trabalhados.
Clima escolar positivo: um caminho para a prevenção
Para enfrentar esse cenário, a pesquisa aponta a importância de um clima escolar positivo, que cria as condições para que a escola atue de forma preventiva, intencional e colaborativa. No entanto, o levantamento revela que mais da metade das escolas (54,8%) nunca realizaram um diagnóstico estruturado do clima escolar, uma etapa essencial para orientar políticas de convivência e aprendizagem. Embora 67,6% das unidades de ensino possuam equipe responsável por ações de melhoria do clima, nas demais, a responsabilidade recai diretamente sobre a gestão, que já vivencia uma sobrecarga de trabalho.
A criação de um ambiente de confiança, respeito e escuta entre estudantes e adultos é fundamental. Quando os alunos se sentem acolhidos e seguros, sem medo de errar, a aprendizagem acontece com mais qualidade e equidade. Isso é vital para o desenvolvimento de nossas crianças e adolescentes, que precisam de um espaço onde possam crescer plenamente, longe do medo e do preconceito.
O impacto na aprendizagem e o chamado à ação local
A relação entre um clima escolar positivo e o desempenho pedagógico é “muito forte”, segundo o pesquisador Adriano Moro. Para os estudantes de Ilhéus, Itabuna, Uruçuca e demais cidades da região, um ambiente escolar seguro e acolhedor significa melhores oportunidades de aprendizado e um futuro mais promissor. A boa notícia é que o governo federal recriou, em 4 de maio de 2026, um grupo de trabalho (GT) para subsidiar políticas de combate ao bullying e ao preconceito na educação, com prazo inicial de 120 dias para apresentar propostas.
Para quem mora em Ilhéus e nas cidades vizinhas, esta matéria é útil porque valida as preocupações de pais, educadores e gestores. Ela mostra que os desafios enfrentados em nossas escolas não são isolados, mas parte de um problema nacional que exige atenção e ação coordenada. Ao entender a profundidade e as nuances da violência escolar, a comunidade pode se engajar de forma mais consciente, cobrando das autoridades e apoiando as iniciativas que buscam transformar nossas escolas em espaços verdadeiramente seguros e propícios ao desenvolvimento humano e acadêmico. É um convite para que cada um faça a sua parte na construção de um futuro mais justo e acolhedor para as novas gerações da nossa querida região.

